MP apura cárcere e tortura de 72 mulheres em clínica no Paraná

Mais de 70 mulheres eram mantidas em cárcere privado e torturadas com castigos e sedativos em clínica no Paraná

Uma ofensiva contra graves violações de direitos humanos resultou na prisão temporária do gestor da Clínica Médica Vida Nova, situada em Terra Roxa, no Oeste do Paraná. O estabelecimento mantinha cerca de 72 mulheres internadas — parte delas com deficiência —, submetidas a condições degradantes que incluíam privação de liberdade, trabalhos forçados, punições físicas e dopagem forçada.

Esquema de internação compulsória e castigos

A ofensiva, denominada Operação Aurora, foi coordenada pela Promotoria de Justiça de Terra Roxa, com o apoio do Núcleo Regional de Umuarama do Gaeco e do Centro de Apoio Técnico à Execução (Caex). A apuração revelou que muitas das pacientes estavam no local sem consentimento, sem respaldo de laudo médico e sem autorização judicial.

Segundo o Ministério Público do Estado do Paraná (MPPR), há denúncias graves de que mulheres foram capturadas por pessoas não identificadas e entregues diretamente ao centro terapêutico. Na rotina da instituição, os responsáveis aplicavam castigos arbitrários, cancelavam o direito a visitas de parentes e coagiam as vítimas a permanecerem em silêncio sempre que equipes de fiscalização vistoriavam as instalações.

Uso de sedativo apelidado de “danone”

Entre os abusos documentados pelos investigadores está a ministração deliberada de fortes medicamentos tranquilizantes, chamados internamente de “danone”. As doses eram administradas para desacordar as pacientes de forma compulsória. O inquérito também apurou episódios reiterados de negligência em socorro de saúde emergencial.

Apreensões e prisões durante mandados

Ao todo, a Justiça expediu autorizações para cumprimento de buscas em cinco locais estratégicos, englobando veículos, a sede da clínica, residências dos alvos e uma propriedade na zona rural. Na ação, aparelhos celulares e eletrônicos foram confiscados para perícia.

Além da detenção do proprietário da clínica, o pai dele foi autuado em flagrante devido à posse ilegal de armas e munições, mas acabou liberado após recolher fiança estipulada pelas autoridades. Os nomes dos envolvidos permanecem sob sigilo judicial.

Desocupação progressiva e defesa da clínica

Mesmo diante do quadro constatado, as atividades do estabelecimento não foram suspensas de imediato e as mulheres seguem provisoriamente no local. De acordo com os promotores responsáveis, a impossibilidade de acolher todas as pacientes simultaneamente em outras estruturas da rede assistencial exige um plano de remoção gradativa.

Em nota oficial, a Clínica Médica Vida Nova refutou integralmente as acusações de cárcere privado e violência, afirmando que presta assistência humanizada a cerca de 70 mulheres por meio de equipe multidisciplinar. A defesa garantiu manter uma rotina de respeito às normas vigentes e expressou total colaboração com os órgãos responsáveis pela apuração.

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